i kiss the kook




Mesmo que não tivesse mexido uma palha teria valido a pena ter vindo a este jantar, só pelos vinhos Nieepoot o preço era mais do que justificado. Mas foi muito mais do que pensei. Ultimamente só ouvia falar no Kiss the Cook, mas não fazia a mínima ideia do que ao certo se tratava. Quem me lá levou foi a Teresa Vivas e o José de Noronha Brandão que ali me me depositaram, qual criança no seu primeiro dia de escola. Não conhecia ninguém a não ser os três Masterchefs e o Chef Alexandre Silva que, nessa noite conduzia a cozinha. Mas afinal era eu que ia fazer o meu próprio jantar. Eu e os outros todos. Duas pessoas em cada fogão. Arranjei logo uma colega, a Rita Montez da Visão que se veio a revelar uma perita em mexer risotto. Eu fiquei responsável pelo corte e costura (com palitos), é verdade. Assim vale a pena cozinhar. Quando se chega à bancada, a papinha já está feita e depois é só preparar uma coisitas e cozinhá-las. As receitas eram simples e altamente possíveis de fazer em casa, excepto preparar e fumar a cavala, no que toca ao bom aspecto dos filetes e ao facto de se ter um defumador. Entre a confecção de cada prato sentamo-nos todos à mesma mesa e vamos conversando com os vizinhos.  Afinal o Kiss the Cook pode ser ou já é, um novo conceito de restaurante. onde amigos e desconhecidos podem passar um momento bem agradável e ainda por cima aprender umas coisas de culinária. Um jantar assim é uma excelente ideia para uma festa de anos, por exemplo.

12 meses 12 chefs

Confesso que a caminho da Penha Longa, já noite escura, pensei por que raio alguém se daria ao trabalho de conduzir até ali por causa de um simples jantar. Só que, mal se entra no Arola aquela cozinha aberta, em movimento, dá logo vontade de ali ficar a ver (a viver). Esquece-se tudo. Depois entra-se numa espécie de futuro, um útero espacial, tão agradável, que o jantar pode demorar horas. E como se isto não bastasse, um local que mima os seus clientes com a presença de outros chefs é de ficar logo fã. Se há ideias que valem a pena, esta é uma delas. São 45 euros bem gastos que o vinho está incluído e o jantar do Chef Luís Carvalho (da Bica do Sapato) foi excelente. O próximo Chef é João Sá (do GSpot) no dia 6 de abril.

arte sem manha


Outro dia fui a Cabo Verde a uma das suas muitas ilhas, espalhadas pelo mundo. Cheguei às duas da tarde para almoçar e saí de lá eram quase oito horas. Comida e bebida com fartura e a música tão viva a puxar tanto pela alma e pelo corpo que até me esqueci de fotografar a cachupa. O arte&manha é um local inesperado, um autentico fenómeno de produção artística que não olha a idades. Só não volto se não puder.

a laranja



 
"É um objecto formado por uma série de contentores modelados em forma de gomo, dispostos circularmente em torno de um eixo central, ao qual cada elemento apoia o seu lado rectilíneo, enquanto todos os lados curvos, voltados para o exterior, produzem como forma global uma espécie de esfera. O conjunto destes gomos está envolvido por uma embalagem bem característica, tanto do ponto de vista da matéria como da cor: dura na superfície externa e revestida no interior de um acolchoado fofo, que serve para proteger do exterior o conjunto dos contentores. Todo este material é na sua origem da mesma natureza, mas diferencia-se necessariamente segundo a função. Cada contentor, por sua vez, é formado por uma película plástica, suficiente para conter sumo, mas bastante maleável quando da sua decomposição da forma global. Cada gomo mantém-se ligado aos outros por um adesivo muito frágil. A embalagem, como é hoje corrente, não tem de ser devolvida ao fabricante. Cada gomo tem exactamente a forma da disposição dos dentes na boca humana e, uma vez extraído da embalagem pode ser encostado aos dentes que, com uma ligeira pressão, o rompe, e dele extraem o seu sumo. Os gomos contêm, além do sumo, pequenas sementes da mesma planta que engendrou o fruto: uma pequena homenagem da produção ao consumidor, no caso de este desejar ter uma produção pessoal desses objectos. Observe-se o desinteresse económico dessa ideia e, por outro lado, a ligação psicológica que se estabelece entre consumo e produção: ninguém, ou muito poucos, semearão laranjas, mas esta concessão, altamente altruísta, a ideia de se poder fazê-lo, liberta o consumidor do complexo de castração e estabelece uma relação de confiança autónoma recíproca. Por isso a laranja é um objecto quase perfeito, encontrando-se nele uma total coerência entre forma, função e consumo. Também a cor é exacta; se fosse azul, estaria completamente errado. A única concessão decorativa, se assim se pode dizer, consiste na pesquisa «matérica» da superfície da embalagem, tratada como «casca de laranja». Talvez para evocar a polpa interna dos gomos. Por vezes é admissível um mínimo de decoração, se perfeitamente justificado.” 


in Das Coisas Nascem Coisas de Bruno Munari

errâncias no laranjal


Fui ao mercado de Sta Clara, que agora alberga o Centro das Artes Culinárias, ver a exposição "Errâncias no Laranjal" (até 18 de março). Tudo sobre a laranja até ao mais ínfimo pormenor, está ali. E além de ter ter bebido um delicioso sumo de laranjas do Algarve ainda me deram a provar um doce feito com as cascas das mesmas. Escusado será dizer que vim de lá carregada de laranjas, que entretanto já foram espremidas e as cascas postas de molho para amanhá serem transformadas em doce. Só espero que fique parecido com o que ali provei.